Cynthia Carvalho - A roteirista

Desde que me entendo por gente, fazia quadrinhos. Primeiro uns sapos futuristas horrorosos, que desenhava em cadernos pautados e mostrava não a uma mãe, mas às namoradas do meu pai, que “achavam lindo” e assim conquistavam mais um pouco o coração do viúvo tirano.

Um pouco mais velha, ganhava uns trocados fazendo HQs com personagens da família. Uma tia comprava 1 gibi por semana, contanto que ela estivesse na história. Eu aproveitava para esculachar com todo mundo, era o único jeito de fazê-lo impunemente. Paralelo a isso eu fazia, para mim mesma, aventuras futuristas com os equinóides. Corpo humanóide e cabeça de cavalos. Haviam outros personagens, mas menos importantes.

Sempre fui muito introspectiva e escrever e desenhar era fundamental para mim. Até hoje eu não suporto ser interrompida quando estou escrevendo.

É como ser brutalmente arrancada de um universo e ser atirada a outro. Não dá pra não entrar em choque.Entre um choque e outro (ninguém respeitava minha introspecção), aos 16 anos fiz a primeira HQ com o Leão Negro. Na verdade ele era um personagem secundário na saga da Tchí, a leoa. Mas se mostrou tão forte que chamou atenção.

Aos 21 mostrei o rascunho para o Ofeliano, mentor de jovens quadrinhistas da época e mais tarde, companheiro. No traço do Ofeliano o personagem ganhou ainda mais personalidade. Quando o jornal O Globo nos contratou para produzir tirinhas de aventura é que a coisa deslanchou. Produzi freneticamente roteiros e mais roteiros.

Paralelo a isso, escrevi alguns roteiros e artefinalizei outras HQs de romance, sci-fi, humor e eróticas para editoras de São Paulo. Mas meu forte mesmo é roteiro. Não tenho o talento e a disciplina necessários para um bom ilustrador. Acabei me formando em design e fui trabalhar em agências de propaganda e editoras. Hoje sou uma designer que também faz roteiros.

Há poucos anos, graças ao entusiamo do Vitor, me animei a retomar o Leão Negro. Voltei a escrever roteiros e procurei muito por um desenhista com talento e disposição para desenhá-los. Danusko foi um achado. Estou animada, finalmente o leão está de volta.

Nada vem do nada

Levei muito tempo para perceber isso. Nos roteiros mais recentes, o Leão Negro foi ficando cada vez mais parecido com uma pessoa muito importante para mim: meu pai. Colérico, infiel... um adorável canalha, como Othan. “Doutor Carvalho” pode ter sido tudo isso, mas, para mim, será sempre o homem orgulhoso e elegante que eu admirava. Criou sózinho os sete filhos que teve com duas mulheres numa enorme casa, isolada e encravada no alto de um morro (eis a Ilha de Gardo!). Dos sete capetas, um deles ficou tão parecido com ele próprio, que não podiam suportar-se (e eis Kasdhan!). Nos roteiros mais recentes vão despontando características de vários membros de minha louca família.

Sim, tenho material pra muitas histórias... tudo colhido na infância.