Ofeliano de Almeida - O desenhista

Minha primeira e permanente influência no desenho de aventura em quadrinhos é Principe Valente, de Harold Foster. Lembro-me, com nove anos de idade, indo visitar meus avós num ônibus para São Paulo, lendo uma revista do príncipe Val onde ele retorna a seu castelo. Vindo de mais uma batalha sangrenta ele invade a sala de banhos de sua mulher, a cinematográfica princesa Aleta. Foster desenhou Aleta em muitas cenas sensuais e embora ela lembrasse bastante as donas de casa da classe média dos seriados tipo I Love Lucy se tornou minha namorada por um tempo.

Afinal, Foster traçava tudo com a elegância e o esmero dos gravuristas românticos e transformava a Idade Média insalubre num verdadeiro resort charmoso e prazeroso. As cenas de batalha, tarefa complexa pra qualquer desenhista, ficaram impressas na minha mente como modelo pra desafios profissionais no futuro. Nenhuma criança escaparia a tal encantamento. Eu estava fisgado.

Creio que toda minha carreira de desenhista de quadrinhos vem sendo uma tentativa de perpetuar o impacto e a magia daquelas horas de viagem, folheando aquele gibi. A vida e o mundo seriam bons se eu os mantivesse daquele jeito. Como se minha carreira estivesse traçada nas estrelas desde o Big Bang, me tornei artista gráfico, com ênfase para os quadrinhos. Só não podia calcular que dedicar-me à HQ no “Terceiro Mundo” era muito mais arriscado do que enfrentar os monstros e guerreiros mongóis que o príncipe VAL destroçava com vigorosas espadadas. É que, em geral, ganhou-se pouco dinheiro na HQ brasileira, embora tenhamos muitos talentos verdadeiros. Mas se a luta seria inglória, pelo menos que fosse divertida. As causas perdidas sempre foram as mais atraentes e, afinal, meus heróis de juventude nunca foram Disney ou Kennedy, mas Carlos Lamarca e Sandino.

Porém, pesando tudo nestes 25 anos de batalhas gráficas, vejo que emplaquei algumas vitórias memoráveis e coloquei meus quadrinhos em gibis, livros, revistas e jornais, alguns deles com milhões de leitores mensais.

Conhecer Cynthia Carvalho e seu imaginário em HQ foi como um encontro zodiacal: harmonia cósmica. Fizemos dois anos de tiras diárias do Leão Negro em O Globo (de 1987 a 1989), depois o álbum a cores pela Meribérica (Lisboa), distribuído nos países de língua latina, mais tarde publicamos três aventuras na revista Saga e queremos vê-lo abrindo caminhos sempre, nem que seja com vigorosas espadadas.